TYPHIS PERNAMBUCANO - 1823




TYPHIS PERNAMBUCANO
Recife – Pernambuco 1823


Joaquim da Silva Rabelo – depois conhecido como Frei Caneca – é um personagem complexo da história do Brasil. Uma mistura de mártir e bode expiatório da Confederação do Equador (1824). Foi o primeiro a ser condenado à morte (ao todo, 11 receberam a mesma sentença). Nos autos do processo ele é descrito como “escritor de papéis incendiários” e um dos líderes da revolta, que teve seu início em Pernambuco obtendo depois o apoio das províncias do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Fico imaginando a infância de Joaquim, primogênito de Dona Francisca e de Seu Domingos, conhecido toneleiro (artesão que fabrica tonéis e barris). Mas Seu Domingos não fazia apenas tonéis, na sua oficina eram produzidas também muitas canecas com folhas de flandres. E com elas o menino Joaquim saía pelas ruas do Recife, vendendo a produção paterna e ganhando alguns trocados. Depois de se ordenar carmelita Joaquim fez questão de adicionar o “Caneca” como sobrenome, em homenagem à profissão do pai.

O filho do toneleiro foi um daqueles exemplos em que “a mente faz a revolução”. A revolução verdadeira, a das idéias, a da transformação partindo de cada indivíduo e abrangendo todos os segmentos sociais. Ele chegou a pegar nas armas já nas últimas semanas da Revolução Pernambucana de 1817. Porém sua força estava na palavra. Ficou quatro anos preso na Bahia retornando a Pernambuco em 1821. Em 1823 lança o jornal Tiphys Pernambucano, que incomodou as elites e o imperador-ditador Pedro I.
(Aqui um parêntese... Tífis, meus IIr.'., foi o piloto do barco que reuniu os Argonautas, famosa lenda grega. Pelo título do seu jornal, nota-se no frei a responsabilidade que tomou para si: através da imprensa, ser o mentor intelectual da Confederação e dos seus ideais libertários).

Quando povo e revolucionários iam tornando-se uma coisa só, Pedro I viu que novamente Pernambuco merecia um corretivo. Não teve dúvidas: alugou os serviços do almirante escocês Thomas Cochrane e ele com sua frota sitiou o porto do Recife. Foi sufocada a rebelião, instaurava-se a caçada aos inimigos da monarquia. Palavras do frei: “S. M. está tão persuadido que a única atribuição que tem sobre os povos, é esta do poder da força, a que chamam outros a última razão do Estado (...)". Pedro I também era um imperador rancoroso. Como punição aos rebeldes, “redesenhou” o mapa de Pernambuco. A mutilação geográfica começou logo após a Revolução de 1817 – “fatiando” o sul da província e criando Alagoas. Depois da Confederação do Equador perdemos a Comarca de São Francisco (que foi dividida entre a Bahia e Minas Gerais). Mas não pensem que o empenho do imperador em sufocar as idéias libertárias pernambucanas tem a ver em “manter a unidade da nação”. Enquanto Carlota Joaquina raspava seus sapatos no casco do navio que a levaria de novo a Lisboa (“para não ficar nenhum vestígio desta terra miserável sob os meus pés”) dias antes D. João VI raspou tudo que tinha no recém-criado Banco do Brasil. O príncipe Pedro herdou um reino falido. Se a Confederação do Equador realmente tivesse se tornado uma república, Pedro I iria perder os pesados impostos e taxas portuárias que a corte cobrava das províncias do norte. Alguém tem que manter o luxo dos fidalgos, não é mesmo? Nós não mantemos o bem-bom do Palácio do Planalto?

Ah sim, antes que eu termine (não é implicância contra o imperador, por favor): depois do sucesso em sua campanha militar no litoral pernambucano, o almirante Cochrane voltou para sua terra muito chateado. Pedro I lhe deu um calote, não pagou pelos seus serviços. Quanto ao Frei do Amor Divino Caneca, não se sabe ao certo se os militares “se recusaram” a enforcá-lo. Pode ser só mais uma lenda. O fato é que depois de dispararem suas espingardas, os soldados jogaram o corpo em frente ao convento onde o carmelita tinha se ordenado. Não havia ninguém para abrir as portas. Os demais frades tinham se escondido em casas de parentes e amigos.

O jornal encerrou sua publicação com o número 29, no dia 12 de agosto de 1824. O jornalista Frei Caneca suspendeu-o para juntar-se às tropas que combatiam o Morgado do Cabo, já derrotadas e a caminho do Ceará. Seu fundador e redator foi preso e conduzido para o Recife, sendo fuzilado em 13 de janeiro de 1825, no Forte das Cinco Pontas.

Ruy Luiz Ramires.'.